terça-feira, 10 de setembro de 2013

Resenha: A maldição do olhar - Jorge Miguel Marinho

"A única falta que sentia era o encanto de fazer uma guirlanda de margaridas ou rosas azuis. Não pelo adereço que lhe dava uma aparência meio débil, mas pela alegria de escolher as flores e arrancar a beleza pela raiz. Lamentava que o coelho com olhos cor de rosa não se multiplicasse na esterilidade do sonho e só restasse dele um colete branco, um relógio quebrado, uma pata em forma de chaveiro que ela usava como fetiche nos últimos anos de vazio. Alice não suportava lembrar do passado e estava decidida a abandonar o fundo do espelho por mais que a vida fosse a maravilha das maravilhas naquele estranho país." p. 42

"A maldição do Olhar" conta a estória de Alê, um adolescente que não sabe ao certo se é vampiro ou se é um humano. Ele vive com o pai José Régio que é um vampiro decadente, que já perdeu todos os caninos por falta de dinheiro, trabalha num cartório e sonha em se aposentar em ir para a Aústria.
Alexandre também convive com a madrasta Elza por quem tem alguns sonhos levemente sensuais. Ela trabalha em um motel. Nem ela e nem Alê sabem se realmente são imortais. Porem uma onda de assassinatos contra vampiros os deixa em alerta, eles começam a andar com alho, água benta, estaca de prata...para se defenderem de qualquer potencial assassino.
Qualquer humano é suspeito já que eles correm enlouquecidamente atrás de uma fórmula que os deixem sempre jovens.

Dentro do quarto de Alê, mais precisamente dentro do guarda roupa, há um espelho... um espelho até então sem utilidade já que vampiros não conseguem ver sua imagem refletidas neles, porem dentro desse mágico objeto esta presa a Alice do País das Maravilhas.
Ela quer se ver livre daquele lugar maravilhoso, quer ver o que há do outro lado. Alê só consegue se ver através dos olhos de Alice, e aí surge uma bruma de Narcíso.
O livro em si é pequeno, são 120 páginas, mas ele é denso, forte e faz o leitor pensar.

Não tem apenas um mote, são vários, e cada leitor tem a possibilidade de se agarrar ao que mais se identificar. Existe o suspense em desvendar quem é o verdadeiro assassino, tem a dualidade do ser (meio Milan Kundera), tem a questão da descoberta do sexo, a descoberta do amor, a dúvida em ser feminino ou masculino.

É um livro juvenil, mas que pela linguagem, pelos simbolismos e pela série de interpretações que são possíveis através dele, acredito que vá atrair muito mais os adultos.